Clube Brasileiro de Trens Fantasmas: Janeiro 2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A Lenda da Cabra Cabriola (Norte e Nordeste)


A Cabra Cabriola é um ser imaginário da mitologia infantil portuguesa, mas também surge no resto da península Ibérica, foi depois levada para o Brasil pelos portugueses. A Cabra Cabriola é a personificação do medo, um animal em forma de cabra, um animal frequentemente de aspecto monstruoso comedor de crianças, um papa-meninos. No século XIX a Cabra Cabriola era tema de uma canção de embalar: "Cabra cabriola corre montes e vales, Corre meninos a pares tamêm te comerá a ti se cá chegares".

A Cabra Cabriola no Piauí e Pernambuco data dos século XIX e XX. No Brasil, a lenda deriva-se de um mito afro-brasileiro, onde acreditava-se tratar-se de um duende maligno que tomava a forma de uma cabra. Costumava atacar as mães quando estavam amamentando. Bebiam seu leite direto nos seus seios, e depois devoravam as crianças. Além de Pernambuco, há versões deste mito nos estados do Ceará, Bahia, Alagoas, Sergipe e Pará. Além de Portugal e Brasil, a lenda também é conhecida na Espanha.

Soltava fogo e fumaça pelos olhos, nariz e boca. Atacava quem andasse pelas ruas desertas nas noites de sexta. Mas, o pior era que a Cabriola entrava nas casas pelo telhado ou porta, à procura de meninos malcriados e travessos cantando de forma sinistra essa canção:

Eu sou a Cabra Cabriola
Que como meninos aos pares
Também comerei a vós
Uns carochinhos de nada

As crianças não podiam sair de perto das mães, ao escutarem qualquer ruído estranho perto da casa. Podia ser qualquer outro bicho, ou então a Cabriola, assim era bom não arriscar. Astuta como uma Raposa e fétida como um bode, assim era ela.

Em casa de menino obediente, bom para a mãe, que não mijasse na cama e não fosse traquino, a Cabra Cabriola não passava nem perto. 

Quando no silêncio da noite, alguma criança chorava, diziam que a Cabriola estava devorando algum malcriado. O melhor nessa hora era rezar o Padre Nosso e fazer o Sinal da Cruz. 

Considerada mais temida que o Lobisomem e a Mula-sem-Cabeça, que são mitos vindos de fora há muito mais tempo, a Cabra Cabriola, logo se tornaria o consolo das mães, já que não precisavam se esforçar muito para fazerem seus filhos tomarem o rumo da cama logo cedo. Para os pequenos era o maior pesadelo. 

São muitos e faz parte da tradição regular, os contos populares em que figura a Cabra Cabriola em ação. Os testemunhos de época logo se tornavam valiosos meios para as mães colocarem na linha seus filhos travessos, ou malcriados.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A Lenda da Pedra da Gávea (Rio de Janeiro-RJ)



Um mistério assombra e divide a arqueologia brasileira: a pedra da Gávea na cidade do Rio de Janeiro. Uma corrente vê nela uma esfinge perfeita, cuja fisionomia durante o dia é a de um jovem, e ao entardecer é a de um velho enrugado e triste. Outra corrente não admite estas interpretações e vê em tudo apenas uma coincidência muito grande. Mas uma coisa ninguém ainda conseguiu explicar suficientemente: são as inscrições talhadas na pedra".

Sua parte superior tem a forma de uma gávea, muito comum nas antigas caravelas. Devido à essa semelhança, a pedra foi batizada pelos portugueses como "Pedra da Gávea".

Um observador mais atento notará que esta parte superior da pedra, vista do Leblon, se assemelha a um sarcófago egípcio.

O batismo dessa montanha rochosa como Pedra da Gávea remonta à épica expedição do capitão português Gaspar de Lemos, iniciada em 1501, de que participou igualmente Américo Vespúcio, e na qual também o Rio de Janeiro recebeu sua denominação.

Foi a primeira montanha carioca a ser batizada com um nome em português, após ter sido avistada, no primeiro dia de janeiro de 1502 pelos seus marujos, que reconheceram em sua silhueta o formato de um cesto de gávea, dando origem ao termo usado para toda a região da Gávea Pequena e para o atual bairro da Gávea.

No alto de uma montanha costeira, existe o que muitos acreditam ser inscrições antigas, que remetem a uma língua muito antiga. O formato estranho da montanha levou muitas pessoas a compará-la com a Esfinge de Gizé, no Egito. As inscrições aliadas a esse formato nada convencional da rocha fluminense são o ponto de partida para muitas teorias a respeito da possível presença de fenícios no Brasil, muito antes da chegada dos portugueses.

Já os céticos acreditam que o formato da rocha e as tais inscrições, são resultado da erosão. Essa alegação é muito comum nesse tipo de situação: rochas com formatos estranhos e que sugerem que tenham sido beneficiadas por grupos humanos antigos.



A teoria de uma tumba fenícia

Pedro Lacaz do Amaral, um experiente guia e alpinista do Live to Climb, que escalou a rocha várias vezes, acredita que a rocha seria o lugar do enterro de um rei fenício. Essa é a teoria mais aceita entre aqueles que acreditam que o formato da montanha tenha sido moldada por mãos humanas. Essa lenda é bastante conhecida entre os brasileiros, e já foi abordada por diversas revistas e jornais.


Primeiras Explorações

Tudo começa no século XIX. Alguns “sinais” do lado da pedra teriam chamado à atenção do imperador D. Pedro I, embora seu pai, D. João VI, então Rei de Portugal, já houvesse recebido um relatório de um padre dizendo-lhe sobre as marcas estranhas, que datariam de antes de 1500, de quando o Brasil foi “descoberto”. Em 1839 uma pesquisa oficial foi feita, e em 23 de março, em sua oitava seção extraordinária, o Instituto Geográfico e Histórico do Brasil decidiu que a Pedra da Gávea deveria ser minuciosamente analisada e ordenou então o estudo das inscrições do local.

Uma pequena comissão foi formada para estudar a rocha, porém cerca de 130 anos depois, O Globo questionou tal comissão, perguntando se eles realmente escalaram a rocha ou simplesmente estudaram-na usando binóculos. O relatório dado pelo grupo de pesquisa diz que eles “viram as inscrições e também algumas depressões feitas pela natureza”. No entanto, ninguém que vê essas marcas de perto vai concordar que algum tipo de fenômeno natural poderia ter causado a aparição dessas inscrições na rocha bruta.

Após o primeiro relatório, ninguém falou sobre a Pedra da Gávea novamente e oficialmente até 1931, porém a lenda de que o local era algo mais do que uma formação rochosa natural já havia se difundido bastante, tanto entre os habitantes da cidade, como entre alguns pesquisadores e exploradores. Em 1931 um grupo de excursionistas formou uma expedição para procurar o suposto túmulo do rei fenício. Acredita-se que a pedra da Gávea seja o local de descanso construído para o rei fenício. Algumas escavações foram feitas, porém nenhum resultado pode ser registrado.

Em 1933 um clube de alpinistas do Rio de Janeiro organizou uma grande expedição. Essa empreitada contava com 85 alpinistas, e contou com a participação do Professor Alfredo dos Anjos, um historiador que deu uma palestra “in loco” sobre a “Cabeça do Imperador” e as suas possíveis origens.

Em 20 de janeiro de 1937 aquele mesmo clube organizou outra expedição, desta vez com um maior número de participantes, com o objetivo de explorar a face e os olhos. Eles explorariam a cabeça de cima para baixo, usando cordas. Essa foi a primeira vez que alguém visitou aquela parte da rocha.

Em 1946, de acordo com um artigo escrito em 1956, o Centro de Excursionistas Brasileiros conquistaram a orelha direita da cabeça, que está localizada em uma inclinação de 80 graus do solo e em um lugar muito difícil de alcançar. Qualquer contratempo resultaria em uma queda de 20 metros. Esta primeira escalada do lado ocidental, embora quase vertical, foi feita virtualmente “à unha”. Há, na orelha direita, foi encontrada a entrada de uma gruta, que leva a uma caverna longa e muito estreita. O comprimento desse espaço se assemelha à largura necessária para percorrer a “cabeça” de “orelha a orelha”.

Em 1972, escaladores da “Equipe Neblina” escalaram o “Paredão do Escaravelho”, a parede do lado leste da cabeça, e cruzou com as inscrições supostamente fenícias, que ficam há cerca de 30 metros abaixo do topo da cabeça.

Em 1963 um arqueólogo e professor chamado Bernardo A. Silva Ramos deduziu que as inscrições formariam a seguinte frase: “LAABHTEJ BAR RIZDAB NAISINEOF RUZT”.

Se os caracteres forem lidos ao contrário, ou seja, da direita para à esquerda (assim como no árabe, sânscrito e no hebreu atual se lê da direita para à esquerda), a frase formada seria: “TZUR FOENISIAN BADZIR RAB JETHBAAL”, que traduzido significa: Tiro Fenícia Badezir Primogênito de Jethbaal.

Nos dias de hoje sabe-se, através de documentos oficiais, que em torno de 856 antes de Cristo, Badezir teria subido ao trono em Tiro, Fenícia, hoje território do Líbano.

Arqueólogos mais céticos e precavidos apontam que existe uma série enorme de problemas com as “inscrições”; a primeira é que os fenícios não se referiam a si mesmos como “fenícios”, uma vez que este é um termo grego para se referir a eles. Outro fato é que, como se sabe, a travessia do Oceano Atlântico iria muito além das habilidades navais fenícias, que sempre viajaram perto das margens.


Descobertas no Fundo do Mar

Robert Frank Marx, um arqueólogo americano interessado em descobrir indícios de navegação pré-colombiana no Brasil. Ele iniciou uma série de mergulhos na baía da Guanabara à procura de restos de barcos antigos.

Sobre esta pesquisa do Arqueólogo, Robert F. Marx, O Jornal "O Globo" publicou em 23 de setembro de 1982, a seguinte nota:

“Buscando provas da navegação pré-colombiana no Brasil, e sugerindo que um navio fenício pode ter naufragado na baía de Guanabara, o arqueólogo americano Robert Frank Marx iniciou uma série de mergulhos na referida baía, para tentar descobrir embarcações fenícias naufragadas e provar, assim, que o Brasil e sua costa foram visitados em um passado muito remoto, pelos barcos dessa civilização semita do Oriente Médio, os fenícios de Tiro e Sidon.”

“Durante a expedição submarina, não foi encontrado nenhum navio afundado, mas descobriu algo muito interessante: ânforas (vasos) e outras peças fenícias!”

“O caso da descoberta dessas ânforas fenícias no leito da baía de Guanabara sempre foi tratado com o maior sigilo e sua descoberta foi revelada somente em 1978, com vagas informações.”

“O nome do mergulhador que encontrou as três ânforas, junto com outras 12 peças arqueológicas, foi revelado, após a conferência do Museu da Marinha, pelo presidente da Associação Profissional de Atividades Subaquáticas, Raul Cerqueira. Trata-se do mergulhador José Roberto Teixeira, membro da associação que ficou com uma ânfora e entregou as outras à Marinha.”

O cabo José Tadeu Cabral, que tem mestrado em Arqueologia Pré-Histórica e trabalha no Museu da Marinha, disse que as peças, com capacidade para 36 litros, estão guardadas pelo Governo brasileiro, em um local sigiloso.
Professor Claro Calazans Rodrigues e professor
Ondemar Dias apresentando as ânforas gregas
descobertas na Baía da Guanabara em 1975
Revista Manchete - fev, 1978


Abaixo listamos alguns tópicos que mostram mais alguns fatos que levaram à muitas histórias sobre a rocha:

A aparência da grande cabeça com os dois olhos (não muito profundos e sem comunicação entre eles) e as orelhas, e o local de um nariz;
As pedras enormes no topo da cabeça que se assemelham a uma espécie de coroa ou adorno;
Uma cavidade enorme na forma de um portal no norte-leste parte da cabeça que é de 15 metros de altura, 7 metros de largura e 2 metros de profundidade;
Um observatório na parte Sudeste como um dólmen, contendo algumas gravuras;
Um ponto culminante como uma pequena pirâmide feita de um único bloco de pedra no topo da cabeça;
As famosas e controversas inscrições no lado da rocha;
Algumas outras inscrições pequenas se assemelham a cobras, raios de sol e etc, localizados em todo o topo da montanha;
O local de um suposto nariz, que teria caído há muito tempo.

Roldão Pires Brandão, presidente da Associação Brasileira de Espeleologia e Pesquisa Arqueológica no Rio, e um dos muitos fãs da Pedra declarou:

“É uma esfinge gravada em granito pelos fenícios, que tem a cara de um homem e o corpo de um animal deitado. A cauda deve ter caído por causa da ação do tempo. A rocha, vista de longe, tem a grandeza dos monumentos faraônicos e reproduz, em um de seus lados, a face severa de um patriarca”.

Referência tibetana sobre o reino subterrâneo do Agartha no qual estaria localizada a cidade sagrada de Shambalah


Teoria sobre Shambalah

Shambalah seria a capital de Agharta, um vasto império subterrâneo que, de acordo com seus adeptos, teria milhões de habitantes em várias cidades subterrâneas espalhadas pelo planeta.

Alguns adeptos sustentam que este mundo subterrâneo tem compartimentos secretos dentro da base da pirâmide na Planície de GIZÉ, nas grandes pirâmides, notadamente naquela atribuída a sua construção à Quéops.

De acordo com as mesmas pessoas, há três entradas para Agharta localizadas no Brasil: Sete Cidades do Piauí, Serra do Roncadore outra na Pedra da Gávea (RJ), a qual teria um "portal" para acessar o mundo de Agharta.

Na Pedra da Gávea pode-se observar uma formação rochosa que é considerada por muitos como sendo o portal para Agharta. Por mais que essa especulação a respeito do portal seja um tanto absurda para algumas pessoas, vale a pena observar a grande semelhança entre esse portal da Pedra da Gávea, com o misterioso portal de Amaru Muru, localizado no Peru, que segundo muitas pessoas, seria um portal para outra dimensão.


A Escadaria ascendente

Segundo um fato acontecido, existiria uma gruta tipo sifão na parte onde o maciço rochoso toca o mar, com a parte abobadada acima do mar e com ventilação natural, onde se poderia encontrar uma escadaria, que segundo consta, levaria para cima e ao interior da Pedra.


O caso mais conhecido referente a esta escadaria é o de dois rapazes que faziam caça submarina e ao encontrarem a entrada para esta gruta, resolveram entrar. Decidiram então subir os degraus da escadaria, sendo que a última coisa de que se lembram é de terem perdido os sentidos. Quando acordaram, estavam no topo da pedra a 842 metros de altitude.


Mitologia persa

Segundo a mitologia sagrada da antiga cultura PERSA (hoje o Irã), há quatro estrelas guardiãs no céu sobre os pontos cardeais da Terra. Acredita-se que a Pedra da Gávea é protegida por elas. Aldebaran, na Constelação do Touro – Leste; Fomalhaut, na Constelação de Peixe austral – Sul; Regulus, na Constelação de Leão – Norte e Antares, na Constelação de Escorpião - Oeste.

Em 1937, dois cientistas foram submetidos à uma análise clínica depois de passar uma noite na pedra, onde eles juram ter visto uma estranha luz verde saindo das lacunas de todo o portal, de onde viram muitas estátuas humanas dentro.

Um fato curioso a respeito da rocha, diz respeito a quantidade morte registradas no local. A falta de precaução de muitos alpinistas é o principal fator para o grande índice de acidentes na Pedra da Gávea, mas algumas pessoas acreditam que essas mortes são parte de uma maldição que protegeria a tumba do rei fenício e os tesouros que estariam guardados dentro dela.


O Gigante Adormecido

A Cabeça e os pés do gigante são formados pela Pedra da Gávea (cabeça) e o Pão de Açúcar (pés). A Pedra Bonita, Corcovado, Morro Dois Irmãos, Lagoa Rodrigo de Freitas estão na composição do seu corpo e possuem as suas próprias estórias e rico lendário.
O perfil total de um Gigante Adormecido pode ser visto da Ilha Rasa, a "Ilha de onde se vê RA". Este perfil parece ter sido esculpido na cordilheira aproveitando-se a topografia local, que também dá mostras de ter recebido uma ajudazinha humana modificando um pouco a obra da Mãe Natureza.

São mais ou menos 20 km de comprimento onde se localizam sete bairros litorâneos do Rio de Janeiro: Barra da Tijuca, São Conrado, Leblon, Ipanema, Copacabana, Botafogo e Urca.
Os arqueólogos brasileiros contemporâneos, jamais se deram o trabalho de prosseguir os estudos deixados por seus colegas do século 19 a respeito da estranheza das esculturas localizadas nesta cordilheira. Setenta arqueólogos de quase dois séculos atrás morreram jurando que as formações bizarras não eram produto da erosão e se constituíam em trabalhos devidamente assinados pelas inscrições enigmáticas.

O pesquisador Eduardo B. Chaves, após enumerar uma grande quantidade de estranhezas ligadas ao complexo do Gigante Adormecido, conclui: "... é preciso alertar a quem de direito para o fato de uma civilização avançadíssima, talvez até extraterrestre, ter possivelmente estado no Brasil e nos haver deixado um monumento arqueológico de fazer inveja aos mais famosos do mundo".

Confira abaixo um comercial que uma marca de bebidas criou inspirado nessa lenda:



Luzes Misteriosas

No local também é visto com frequência luzes misteriosas e OVNIS, confira o vídeo abaixo feito em agosto de 2015:




Fontes: Noite Sinistra, Além da Imaginação e Fato e Farsa

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Lenda da Cobra Gigante (Norte do Brasil)


De origem ameríndia, a lenda da Cobra Grande ou também chamada de Boiúna, Cobra Norato ou Mãe Grande fala de uma imensa cobra de tamanho descomunal, que habitar a parte profunda dos rios e lagos e que tem corpo e olhos luminosos além de poder assumir outras formar para enganar o caboclo.
A lenda é bastante conhecida entre as populações ribeirinhas da Amazônia que afirma que ao se rastejar pela terra firme, os sulcos que a cobra deixa se transformam nos igarapés e rios.

Existem diversas versões locais desta lenda. Nos Rios Solimões e Negro, por exemplo, a Cobra Grande nasce do cruzamento de mulher com uma assombração (visagem) ou de um ovo de mutum.
Outra versão da região do Rio Solimões conta que a filha de um pajé foi seduzida por um forasteiro e deu à luz gêmeos: José e Maria. No entanto quando nasceram, o velho pajé matou sua filha e atirou as duas crianças na água. José morreu, mas Maria recebeu a proteção de Iara que a transformou em uma enorme serpente com olhos de fogo, a Cobra Maria derruba barrancos, afunda canoas e encalha navios.

No Rio Tocantins, conta-se que uma índia engravidou da Boiúna e teve duas crianças: uma menina chamada Maria e um menino chamado de Honorato. Para que ninguém soubesse da gravidez, a jovem jogou as crianças no rio na tentativa de mata-los. Porém as duas crianças sobreviveram e nas águas dos rios se criaram como cobras gigantes. Desde a infância os dois irmãos já demonstravam uma grande diferença de personalidade. Maria fazia de tudo para prejudicar os pescadores e ribeirinhos, afundando os barcos para que seus tripulantes morressem afogados.

Ao contrario da irmã Honorato sempre que sabia que ela ia atacar algum barco, tentava salvar a tripulação. As tentativas de impedir as maldades de Maria fez com que uma rivalidade surgisse entre os irmãos. Até que um dia os dois travaram uma briga mortal onde Maria foi derrotada. Assim, as águas da Amazônia e seus habitantes finalmente ficaram livres da maldade de Maria. Honorato, entendendo que já havia cumprido sua missão, desejava voltar para sua forma humana. Para isso, precisava que alguém tivesse a coragem de derramar “leite de peito” em sua boca em uma noite de luar. Feito isso, essa pessoa destemida ainda teria que provocar um sangramento na cabeça gigantesca de Honorato para que a transformação pudesse se completar. Porém ninguém tinha coragem, até que um dia um soldado do município de Cametá, no estado do Pará, conseguiu libertar Honorato do terrível encanto, deixando de ser cobra d’água para viver na terra com sua família.

Em Roraima a lenda diz que uma linda índia, princesa da tribo, ao apaixonar-se pelo Rio Branco, foi transformada numa imensa cobra chamada Boiúna pelo enciumado Muiraquitã. A Boiúna é tida na região como protetora daquele rio, ajudando os pescadores e punindo os predadores de suas águas.

No Acre, a entidade mítica transforma-se numa linda moça, que aparece nas festas de São João para seduzir os rapazes desavisados, como se fosse a versão feminina da lenda do boto cor de rosa.
O mito da Cobra Grande também se manifesta nas crenças das populações urbanas. Diz-se que algumas cidades supostamente estão localizadas sobre a morada da Cobra Grande, como Santana-AP e Parintins-AM por exemplo.

Em Belém, acredita-se que existe uma cobra grande adormecida embaixo da cidade, sendo que sua cabeça estaria sob o altar-mor da Basílica de Nazaré e o final da cauda debaixo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Os mais antigos dizem que se algum dia a cobra acordar ou mesmo tentar se mexer, a cidade toda poderá desabar. Por isso, em 1970 quando houve um tremor de terra na capital paraense falava-se que era a tal cobra que havia apenas se mexido.

Existem de fato cobras de tamanho grande na região amazônica, que habitam as águas dos rios e lagos, onde nadam e mergulham. São chamadas de Boiaçu, Sucuri, Sucuriju ou Anaconda. Pesam em geral 150kg e medem de cinco a sete metros, mas existem descrições de exemplares com mais de 11m.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A Lenda do Bebê-Diabo (São Paulo e Minas Gerais)


Já pensou estar se preparando para dormir, quando, ao olhar pela janela, um bebê com características sobrenaturais passa pulando entre os telhados das casas vizinhas? De acordo com o jornal Notícias populares, diversos moradores do ABC Paulista presenciaram tal cena.

O Notícias Populares circulou em São Paulo, entre 1963 e 2001. Com o slogan “Nada mais que a verdade”, o jornal trazia, principalmente, crimes, sexo e violência. As notícias vinham acompanhadas de manchetes polemizadas, para chamar a atenção do leitor.

Uma das histórias bizarras do Notícias Populares foi a do bebê-diabo. A capa da publicação no dia 11 de maio de 1975 foi “Nasceu o diabo em São Paulo”. De acordo com a notícia, uma senhora havia dado à luz a uma criatura sobrenatural em São Bernardo do Campo. O bebê tinha o corpo completamente coberto de pelos, dois chifres e um rabo, e já nasceu falando e ameaçando médicos e enfermeiras que realizaram o parto.

No dia seguinte, o bebê-diabo estampava a capa do Notícias Populares novamente. A segunda reportagem da série informava que a criatura havia fugido da maternidade. Aparentemente, ele pulou do terceiro andar do hospital e disse que ali não era o seu lugar. Alguns dias depois, o jornal publicou que bebê havia sido capturado por um grupo religioso e poderia ser visitado em breve, com algumas restrições: visitantes deveriam ser maiores de idade, portar um crucifixo, evitar conversar com o ser, não ter problemas cardíacos e assinar um termo de responsabilidade para o caso de serem possuídos pelo demônio.

No total, foram 27 reportagem sobre o assunto, que duplicaram as vendas do jornal durante o período. A última manchete foi publicada no dia 8 de junho. Após 26 dias ininterruptos de atualizações sobre o caso do bebê diabo, o Notícias Populares passara três dias sem tocar no assunto. “Povo vê de novo bebê-diabo do ABC” trouxe a criatura de volta ao imaginário local e, ao mesmo tempo, encerrou a série de reportagens que, se não é a mais bizarra de nossa história, com certeza figura no Top 5 delas. Ninguém nunca mais ouviu falar no bebê-diabo. 

Até que em 2006 na cidade de Sete Lagoas, Minas Gerais, um show da banda Calypso foi um fracasso de público por causa de uma versão desse mito. Das mais de 30.000 pessoas esperadas, apenas 13.000 compareceram, temerosas da profecia de um recém-nascido. A história: numa maternidade local, uma mulher havia dado à luz um bebê capeta no dia 06/06/06.
— Que criança feia! — teria exclamado uma enfermeira.
E o dito cujo, de pronto:
— Feio é o que vai acontecer no show do Calypso.

Pelo visto essa lenda dos anos 70 ainda está muito longe de acabar!


Confira a reportagem de 2006 sobre o fracasso do show por causa da lenda do Bebê-Diabo:


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Lenda do Pai do Mato (Nordeste e Centro-Oeste)


Circula pelo Nordeste e região centro-oeste do país, especialmente no estado de Goiás, ao longo de sua fronteira com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, uma lenda curiosa que fala do pai-do-mato, criatura estranha, esquiva e pouco conhecida, que teria como atenção maior a proteção dos bichos que habitam a área onde ele tem sua morada, procurando dessa forma evitar que os caçadores os matem.

São poucas as pessoas que afirmam já tê-lo visto alguma vez, e por isso a descrição que se tem dele é pobre e desencontrada. Alguns garantem que sua estatura é a de um homem normal, mas outros dizem que é bem mais baixo e que deve passar pouca coisa do metro e meio. Diz-se também que o seu corpo é coberto de pelos, como se fosse um grande macaco, e que suas mãos são idênticas à desses primatas. Outra informação é a de que o chamado pai-do-mato teria uma barbicha bem vistosa, de cor negra, de que o seu nariz seria meio azulado, mas que o restante do corpo não teria diferença alguma se comparado com o de qualquer ser humano..

Essa criatura, segundo se fala, não faz nenhum mal aos humanos, e sua preocupação maior é somente evitar que animais da mata e dos campos sejam mortos por caçadores, seja jogando pedras, seja balançando as moitas ou fazendo qualquer tipo de barulho para que eles fiquem alertados e assim consigam fugir a tempo da morte que os espreita. Segundo as versões que apresentam sobre ele, o pai-do-mato anda sempre acompanhado por um bando de caititus, ou porcos do mato, e sempre que necessário monta no maior deles, desaparecendo em carreira desabalada. Não se tem notícia de que alguém já tenha conseguido aprisionar um desses seres estranhos, mas a voz corrente é de que o umbigo é o ponto fraco da criatura, embora ninguém possa explicar por quê. 

O pai-do-mato costuma caminhar durante o dia em zona de vegetação mais alta, onde ele possa se esconder se porventura encontrar algum homem por seu caminho. Sua visão e audição devem ser boas, pois como já ficou dito, são raras as pessoas que afirmam ter cruzado com ele alguma vez na vida. Não se tem notícia de onde ou de como dorme, mas acredita-se que seja nas árvores.

Em “Páginas do meu Sertão”, 1930, o escritor Derval de Castro apresenta um estudo sobre o interior do estado de Goiás. Em certo trecho do livro (páginas 70 e 71) ele relata: “Sem que jamais tivesse sido visto, conta a lenda queijeira da zona de Anicuns que o pai-do-mato é um animal de pés de cabrito, à semelhança do deus Pã da mitologia, tendo como este o corpo todo piloso. As mãos assemelham-se às dos quadrúmanos. Diferencia destes, entretanto, por andar como ente humano, com o qual se assemelha na fisionomia. Traz no queixo uma irritante barbinha à Mefistófeles, e a sua cor é escuro-fusca, confundindo-se com a do pelo do suíno preto enlameado. Dizem que anda quase sempre nos bandos de queixadas, cavalgando a maior, e conservando-se sempre à retaguarda. Raramente anda só e raramente aparece ao homem. Quando alguém se lhe atravessa na estrada, não retrocede, e, com indômita coragem, procura dar cabo do obstáculo que se lhe antepõe. É corrente, onde ele tem o seu “habitar”, que arma branca não lhe entra na pele, por mais afiada e pontiaguda que seja, salvante no umbigo, que é nele instantaneamente mortal... A urina dele é azul como anil.” 

Em alguns Reisados, aparece uma personagem representando o entremeio do Pai-do-Mato, sob a forma de um sujeito feio, de cabelos grandes. São comuns as expressões entre as mães de família, referindo-se aos filhos que estão com cabelos grandes, sem cortar: "Está que é um Pai-do-Mato", "você quer virar um Pai-do-Mato?", No Reisado, canta-se no entremeio do Pai-do-Mato:
Ó que bicho feio
Só é Pai-do-Mato!...

O pai-do-mato também está presente no folclore nordestino, principalmente em Alagoas e Pernambuco. Naqueles estados se acredita que essa criatura estranha é alta, tem cabelos e unhas grandes, orelhas de cavaco e possui voz tão rouca e forte que quando urra o som desse rugido ecoa estrondosamente pela mata. Dizem que engole gente, e que bala e faca não o matam, a não ser que o atinjam em volta do umbigo.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Lendas brasileiras de vampiros (Norte, Nordeste e Sudeste)


Nas lendas do Brasil, apesar de haverem diversos folcloristas que afirmam o contrário, há vários seres vampíricos, a exemplo do Encourado, Corpo Seco, etc.

Apesar de não haver menção de ingestão de sangue, uma personagem bem semelhante ao vampiro na mitologia indígena é o Cupendipe - Indígenas de asas que os Apinajés (jê) diziam existir no Alto Tocantins. Carlos Estêvam de Oliveira registrou a tradição ouvida de indígenas Apinajés:

"Antigamente existiu no Alto Tocantins uma estranha nação de índios possuidores de asas e que só andavam à noite, voando como os morcegos. Eram conhecidos por Cupendipes e habitavam em um morro, dentro de uma caverna. Quando voavam, conduziam os machados de lua, com os quais degolavam as pessoas e os animais. Certa vez, os Apinajés, reunindo os guerreiros de dez aldeias, foram ataca-los. Chegando ao morro, taparam as entradas da caverna com palhas secas, incendiando-as em seguida. Nesse ataque morreu um velho Cupendipe, ficando preso um menino que, não tendo ainda asas não pode fugir. Afim de pega-lo, os Apinajés entraram na caverna. Depois de prolongada busca, batendo com longas varas por todos os lugares, encontraram-no suspenso em um canto do teto, como se fosse um morcego. Os Apinajés, desejando cria-lo, levaram-no para a aldeia. Não conseguiram, porém, o seu intento. Sempre chorando, o pequeno Cupendipe recusava toda alimentação que não fosse o milho e não se deitava para dormir. Os Apinajés lembravam-se então da posição em que o haviam encontrado e fincaram no chão duas forquilhas, atravessando nelas uma vara. Nesta é que ele, pendurado pelos pés, dormia um pouco. Afinal, alguns dias depois de haver chegado à aldeiam, morreu. No assalto dado à gruta dos Cupendipes, os Apinajés arrecadaram grande número de machados de lua e inúmeros enfeites"

Os machados de lua são de forma semicircular, também denominados machados de âncora (Ihering), e constituem elemento quase típico da etnografia Jê.

Cupendipe- o "vampiro" amazônico


Segundo Nina Balle, "no nordeste brasileiro, conta-se a história do Encourado, um homem de hábitos noturnos que se veste completamente de couro preto, sendo que esta roupas cheiram a sangria. A presença do Encourado inspira medo e respeito. Ele só entra nas casas em que for convidado, no entanto, ele consegue arrumar artifícios para ser convidado. Segundo as lendas, ele tem preferência por pessoas que não freqüentam a igreja, além do que ele sabe de antemão quem são estas pessoas. Assim, ao chegar num povoado, ele já tem em mente quem primeiro procurar. Por onde ele passa, as galinhas param de botar ovos e não comem direito. Os cachorros não saem de casa e gemem o dia inteiro. Até mesmo, os urubus e carcarás, que são aves carniceiras, desaparecem para bem alto e longe.

Ao pressentir a presença do Encourado, os moradores costumam sacrificar algum animal, pois acreditam que feito isso ele irá embora. Conta-se que no passado havia sacrifícios de pessoas indesejáveis, como criminosos e até mesmo de crianças. Entretanto, diz-se que basta oferecer simplesmente uma galinha preta ou galo vermelho para afugenta-lo sem contudo ofendê-lo. A oferenda, no entanto, deve ser pendurada na entrada principal da cidade, pois o Encourado só entra pela porta da frente."

Encourado no filme nacional "O Auto da Compadecida"


Já nas regiões do Pará e Maranhão, lendas indígenas falam da existência de um ser denominado Cupelobo, um homem com focinho de anta, que mata homens e animais de porte, rasgando-lhes a veia carótida para beber o sangue, mas este se identifica mais como uma espécie de Lobisomem do que como vampiro.

Assim como no caso da "Maldição de Sarah Ellen", no Peru, o Brasil também possui estranhos relatos de "vampiros importados", sendo que desta vez a influência externa parece ter vindo do cinema. Por incrível que pareça, histórias como as duas descritas abaixo são mais comuns do que se imagina. O primeiro relato, foi enviado por Vagner Cardoso, Campinas/SP, a um amigo meu que mantém uma Home Page sobre "coisas estranhas" e "fatos inexplicáveis" na internet. O próprio Vagner deu ao seu relato, que pretendia fazer crer-se verídico, o título "As Criaturas da Noite":

"Isto aconteceu mais ou menos em 1969, um vizinho meu que era muito estranho, diziam que ele se chamava José Goé, tinha mais ou menos uns 97 anos. Tinha dois filhos que eram muito estranhos também e nunca saia de casa para nada, inclusive não sei o que comiam, pois não iam na padaria.

A única vez que os vi, os 3 estavam saindo de casa uma madrugada as 3:30 hs, eu estava chegando da noite e por acaso encontrei as figuras horripilantes. - no bairro eu conto mas eles duvidam de mim - Estavam com a boca suja de sangue e os olhos arregalados como se fossem verdadeiros zumbis. Não parei o carro e continuei seguindo em alta velocidade. Fiquei desnorteado ao ver aquilo e corri em direção a um posto policial que ficava mais ou menos a uns 3 Km do local.

Em uma certa travessa parei para fazer o cruzamento de uma avenida quando os 3 apareceram ao lado de meu carro no vidro (já estava longe deles. como chegaram até lá?!). Aí sim vi de perto, não podia acreditar no que via. Tinham presas iguais a de lobos, as quais deviam estar sedentas para sugar minha artéria. Disparei em alta velocidade e continuei o trajeto sem parar em lugar algum.

Quando cheguei no posto policial só havia um guarda, que me informou que haviam acabado de receber um chamado muito estranho de que tinham encontrado um rapaz morto sem nenhuma gota de sangue em seu corpo e que estava até transparente. Contei o fato que tinha acontecido comigo e ele hesitou em acreditar. Me acompanhou até minha casa e mostrei a casa do vizinho.

No outro dia foram fazer uma vistoria na casa e para minha surpresa e a de vocês, não havia ninguém e muito menos móveis e nem vestígios de que passou alguém por ali há muito tempo.

Quem seriam as terríveis criaturas com quem me deparei?"

Outro caso semelhante "ocorrido" no Brasil na década de 60 foi relatado não por uma, mas várias pessoas! Este chegou inclusive a ser publicado no jornal Mirror de Londres, de 9 de novembro de 1967, sob a manchete "Uma Vampira de minissaia Terrifica a Polícia":

"Na última noite, policiais deram caça a uma "vampira" de minissaia que rondava um balneário. A polícia informara que esta vampira aterrorizava as pessoas, à noite, numa praia da cidade brasileira de Manaus. Várias pessoas que foram atacadas descrevem o vampiro como "uma mulher loura com dentes longos e pontiagudos, usando uma minissaia e meia negras". Duas pequenas feridas redondas foram encontradas perto da veia jugular de uma criança que foi mordida. Um despacho recebido de Manaus acrescentava que, dos trinta policiais, dezessete abandonaram a caça. Manaus, capital do Estado do Amazonas, no Brasil, está situada perto do Amazonas, o famoso rio que (segundo a lenda) foi assim denominado porque uma população de mulheres guerreiras e ferozes - semelhantes às amazonas da mitologia grega - habitavam suas margens." (Cf. Jacques Bergier. Le Livre De L' Inexplicable, 1973, Éditions Albin Michel)

Em 1997 foi publicada a seguinte carta remetida por Moisés F. Damacena (de Porto Alegre) na revista brasileira - "Coleção Assombração" número 7, especial sobre "casos verídicos" enviados por leitores. Esta carta traz uma versão mais detalhada do caso da vampira do Amazonas que também está um tanto diferente da historia publicada pelo Mirror de Londres. A carta foi quadrinizada e adaptada pela equipe da Coleção Assombração mas o texto pode ser reproduzido individualmente sem nenhuma perda no conteúdo:

Caso verídico remetido por Moisés F. Damacena (Porto Alegre): "Passei minha infância ouvindo meu tio David contando e recontando uma estranha história, passada em Manaus:

Estava ele tirando férias em Manaus, quando a madrugada de 9 de novembro de 1967 foi perturbada por horríveis gritos e gemidos provindos da zona praieira do rio negro. Na mesma noite, foi encontrado nas areias brancas o cadáver de um homem. O corpo não tinha sangue e o pescoço apresentava estranhas perfurações. As prováveis testemunhas depuseram na delegacia. Umas falaram de uma "loura de vestido e meias pretas" outras disseram ter visto a tal loura "correndo semi-nua pela praia e transformando-se em sereia para desaparecer nas águas escuras". Por incríveis que parecessem os depoimentos e apesar do descrédito geral, novas mortes se seguiram: Primeiro, uma menina de 9 anos, depois, um grupo de turistas teve seus pescoços dilacerados e seus corpos dessangrados. Situação terrível. E, pior, mais depoimentos sobre a deslumbrante loura circulavam. Pressionado, o secretário de segurança de estado mandou 30 homens bem armados patrulharem as praias. Tudo se acalmou por algumas semanas até que novo ataque aconteceu, desta vez contra os patrulheiros, com resultados assombrosos: Dos 30 homens armados, 13 confrontaram-se com a "sereia assassina"... Oito soldados morreram esquartejados, seus braços e pernas (foram encontrados) espalhados ao longo da praia. Outros quatro, muito feridos, não tinham a menor idéia do que os havia atacado... Somente um soldado, Jesuíno Menezes, conseguiu descrever uma mulher grande, de 1,90 m ou mais, muito branca, olhos felinos, vermelhos, longos cabelos louros e dentes arreganhados, limados e afiados. Estava semi-nua e faltava-lhe um dos seios.

Agarrado à mão de um dos soldados mortos, encontrou-se um estranho amuleto. O objeto, ainda manchado de sangue, foi levado ao museu Emílio Goeldi deixando perplexos os estudiosos. Segundo declararam aos jornais da época, aquele amuleto poderia ser a primeira prova concreta da existência das lendárias amazonas, as índias guerreiras que habitavam o rio de mesmo nome, assim batizado em homenagem à mitológicas mulheres guerreiras da antiga Grécia. Contudo nunca mais se repetiram aqueles crimes nas praias de Manaus."

Temos aqui 2 fontes para serem analisadas. O repórter do Mirror escrevia para a imprensa séria e teve a chance de relatar o evento quando ele havia acabado de acontecer enquanto a carta de Moisés F. Damacena foi escrita 30 anos depois com um toque de "história de pescador" para dar medo nos leitores... Isso faz do primeiro relato presumivelmente mais confiável. Entretanto, as fontes que o tio de Moisés teve a oportunidade de ler foram evidentemente mais vastas. Observemos alguns detalhes e divergências:

1º Os fatos relatados no Mirror terminam na noite anterior a 9 de novembro de 1967 enquanto na carta de Moisés F. Damacena tudo começa em 9 de novembro de 1967.

2º O Mirror não descreve mortes (ou pelo menos não deixa isso evidente), já que as pessoas atacadas sobreviveram para contar a história. No caso da criança que "foi mordida" e encontrada com "duas pequenas feridas redondas perto da veia jugular" não fica claro se ela morreu ou não.

Já a carta de Moisés não poupa vítimas adultas: "a madrugada de 9 de novembro de 1967 foi perturbada por horríveis gritos e gemidos provindos da zona praieira do rio negro. Na mesma noite, foi encontrado nas areias brancas o cadáver de um homem. O corpo não tinha sangue e o pescoço apresentava estranhas perfurações. (...) novas mortes se seguiram: Primeiro, uma menina de 9 anos, depois, um grupo de turistas teve seus pescoços dilacerados e seus corpos dessangrados. Situação terrível."

3º Segundo o Mirror os policiais caçaram "uma "vampira" de minissaia" que rondava um balneário no Rio Negro, em Manaus, Amazonas e "um despacho recebido de Manaus acrescentava que, dos trinta policiais, dezessete abandonaram a caça." Note que o Mirror não fala sobre o porque desta decisão nem do que aconteceu com os outros soldados que não abandonaram a caça.

Já Moisés F. Damacena descreveu o "ocorrido" pormenorizadamente: "Pressionado, o secretário de segurança de estado mandou 30 homens bem armados patrulharem as praias. tudo se acalmou por algumas semanas até que novo ataque aconteceu, desta vez contra os patrulheiros, com resultados assombrosos: Dos 30 homens armados, 13 confrontaram-se com a "sereia assassina"... Oito soldados morreram esquartejados, seus braços e pernas (foram encontrados) espalhados ao longo da praia. Outros quatro, muito feridos, não tinham a menor idéia do que os havia atacado... Somente um soldado, Jesuíno Menezes, conseguiu descrever uma mulher grande, de 1,90 m ou mais, muito branca, olhos felinos, vermelhos, longos cabelos louros e dentes arreganhados, limados e afiados."

4º O mais importante relatado por Moisés é que a suposta vampira teria deixado um objeto na cena do crime: "Agarrado à mão de um dos soldados mortos, encontrou-se um estranho amuleto. O objeto, ainda manchado de sangue, foi levado ao museu Emílio Goeldi deixando perplexos os estudiosos."

Isso permite uma base para investigação, ou seja, se este amuleto foi realmente encontrado nessas condições e levado para lá, isso prova que o Mirror omitiu dados talvez para não alarmar os leitores...

5º Provavelmente a relação Vampira/Guerreira-Amazona foi uma má interpretação dada pela imprensa da análise do amuleto feita pelos pesquisadores do museu e a relação vampira/sereia foi possivelmente uma espécie de engano das testemunhas (acostumadas com a lenda de Iara da região e similares), quando viram a loira mergulhar no mar.

Creio que Moisés pode ter se confundido em alguns trechos do relato. Por exemplo, a citação de que a vampira não tinha um dos seios foi obviamente um acréscimo sofrido devido a comparação que os jornais estavam fazendo entre ela e as lendárias amazonas gregas, que deram o nome a lenda das índias guerreiras brasileiras. Amazona = um seio. Segundo a mitologia grega, elas mutilavam apenas um dos seios, para que ele não interferisse em seu desempenho no arco e flecha, sua especialização.

Originalmente parece que a estranha loura não tinha nada de índia, nem de amazona e talvez nem de sereia. Isso são elementos do folclore da região e por algum motivo associaram-na a eles... Pelo contrário, ela trajava-se como uma mulher da noite (vestido sensual, meias pretas, minissaia, etc.) e agia como um vampiro cinematográfico bem no estilo "Drácula". Aliás o gênero de filmes e literatura de terror e gótica era muito apreciado no Brasil nos anos 60.

A "vampira do Amazonas" tem "poderes" de transmutação, força física descomunal e deixa marcas no pescoço das vítimas idênticas às dos romances "Drácula" de Bram Stoker e Carmilla de Sheridan Le Fanu.

Note também que ela foi descrita como "loura, alta e branca". Parece um tipo físico europeu ou norte-americano, apesar de haverem controvérsias, como reparou Dani Moreira: "As amazonas brasileiras não tinham muito de vampiras, exceto pelo fato que algumas versões mais sombrias da lenda contam que elas matavam e bebiam o sangue dos meninos recém nascidos. Alem disso, como antropofagia ritual, também já ouvi lendas de que beberiam o sangue dos inimigos valorosos, mas isso é fato em muitas tribos indígenas reais. Quanto a serem brancas, existem algumas lendas indígenas mesmo (não inventadas pelos brancos quando chegaram aqui) que falam de mulheres brancas guerreiras, mas nada sobre seios amputados. Talvez alguma referencia aos cabeludos nórdicos, que supostamente aportaram por aqui ha tempos (...). Existe uma lenda cabocla, sobre a "Flor do Mato" (ela tem mais nomes diferentes), que sempre se apresenta como uma menina inocente, ou mulher sensual, branca e loira, e faz crueldades com quem profana a mata, caçando ou derrubando a toa. Num caso que ouvi, um sujeito que foi caçar com um amigo, matou alguns filhotes, de repente viu uma bela mulher o olhando e foi atras. Seu amigo não viu a moça, tentou procura-lo, mas não achou e voltou pra casa. No outro dia, o corpo do sujeito foi achado pendurado numa arvore próxima a entrada da mata, sem os olhos..."

Um outro caso ocorreu em maio de 1973 no município paulista Guarulhos, segundo relatou André Machado: "João Carlos da costa apareceu morto com as tradicionais marcas de dentes no pescoço, certa noite, no bairro de Bonsucesso. Maria Nogueira, outra vítima em potencial conseguiu salvar seu pescoço, após ser atacada de repente caminhando por uma rua escura. O atacante novamente sumiu como todo bom vampiro: sem deixar vestígios."

Devo acrescentar talvez alguns incidentes ocorrido na rua bem ao lado de minha casa. Um dia jogarem um cadáver completamente lívido cujos únicos ferimentos eram aqueles clássicos pequenos furos no pescoço, coisa que a polícia identificou como "marcas de garfo de churrasco".

Como o serviço policial daqui é péssimo, não recolheram o corpo imediatamente e o deixaram pernoitar naquele mesmo local mais um dia ao que alguém aproveitou para por fogo no cadáver!

Uns meses depois apareceu outro corpo, dessa vez numa outra rua próxima sendo que este estava com um pé de mesa de madeira cravado como uma estaca no coração. A polícia opinou ser ação do tráfico de drogas mas aquele homem não era conhecido por ter qualquer envolvimento com drogas e apesar de as vezes degolarem ou esquartejarem um morto importante para demonstrar poder, os traficantes da região não tem o costume de se dar ao trabalho de quebrar o pé de uma mesa e afiá-lo só para matar um sujeito qualquer. Nesse caso qualquer bala de revolver resolve...


Bibliografia:

André Machado. "Vampiros de carne e osso". Em INCRÍVEL. ANO II - Nº 13 - Agosto de 1993.

Carlos Estêvam de Oliveira. OS APINAJÉS DO ALTO TOCANTINS, 91-92, Boletim do Museu Nacional, VI, n.2, junho de 1930, Rio de Janeiro.

Nina Balle. "VAMPIROS", Lendas e Fantasias nº 2, Publicação de PEN Comércio e Comunicações Ltda., São Paulo, SP. 1992.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A Maldição da Praça Ary Coelho (Campo Grande-MS)

Boa parte dos empreendimentos ao redor da praça fracassaram, e “culpa” é de cemitério que tinha no local


Os espíritos dos mortos do primeiro cemitério de Campo Grande impediam que os negócios, instalados ao redor da Praça Ary Coelho, prosperassem. Era a “maldição da praça”, uma lenda urbana do varejo campo-grandense, possivelmente pouco conhecida pelos moradores da cidade. Quem relata a tal maldição é o empresário Jorge Abdul Ahad. 

“O cemitério da cidade ficava onde hoje é a Praça Ary Coelho. Até que o [engenheiro] Euclides Oliveira loteou um terreno na Vila Glória, onde foi construído o cemitério Santo Antônio. Interessante que a primeira pessoa a ser enterrada no local foi o próprio Euclides”. conta. 

Quanto à maldição da praça, o empresário afirma que, de fato, a maioria dos negócios, instalados no local, fechava as portas. “Diziam que era uma maldição, por causa do antigo cemitério. E, de fato, quase ninguém prosperava”, disse, acrescentando que alguns lojistas só cresciam em seus negócios quando mudavam de endereço. 

LENDAS

Para os comerciantes de hoje, a “maldição da praça” assombrava apenas os antigos lojistas. “Estamos aqui há mais de 20 anos. Era uma lojinha aqui do lado e, agora, estamos neste espaço maior. E sempre crescemos. A maldição não nos pegou”, afirma, bem-humorada, Débora Lívia, gerente de uma loja de cosméticos na Rua 14 de Julho.

Gisele Bettega, vendedora de uma loja de roupas, também na Rua 14, faz comentário semelhante. “Não sabia que ali [a praça] já foi um cemitério. Também nunca ouvi falar dessa maldição. Mas aqui estamos indo bem”, disse Gisele Bettega. 

Parece que as forças do além não afetam mais o comércio dos arredores da praça e a tal “madição” se restringe ao universo das lendas urbanas de Campo Grande. Que assim seja!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A Lenda da Mulher de Duas Cores (Minas Gerais)


Conforme a lenda da mulher de duas cores, a assombração aparece de dia, à luz do sol, nas estradas do Sul de Minas Gerais ou dentro das pequenas matas, fazendo fronteira com o Estado de São Paulo. Veste roupas de algodão de duas cores, seu corpo é dividido em manchas pretas e brancas, caminha com pressa nas pontas dos pés quieta e calada. Contam os antigos que a magra mulher é o fantasma da neta de um viúvo fazendeiro, que ao descobrir que a filha estava grávida de um escravo, e tinha fugido para um quilombo com o negro, encomendou os trabalhos de uma bruxa para que o bebê não viesse ao mundo.

Mesmo assim a mãe deu a luz a uma menina de duas cores, com manchas brancas e manchas escuras. O povo do quilombo a acolheu com carinho e costumava costurar roupas diferentes para esta menina, seus vestidos eram de algodão, longos e sempre tingidos de duas cores.

Ao ficar moça ela saiu do quilombo e foi para a cidade, onde foi muito estigmatizada e até maltratada. Com isso, voltou para o quilombo, porém não encontrou mais ninguém do seu povo, já que com a abolição da escravatura todos tinham ido para a cidade. 

Deste ocorrido, a menina retornou para a cidade em busca de seu povo, porém no caminho pegou uma forte tempestade e para se abrigar entrou dentro de uma casa sem bater , porém tropeçou em um vaso e fez barulho . Desta maneira , uma das moradoras deu de cara com ela e se assustou soltando um grito . 
Então , as outras pessoas da casa acordaram e se espantaram com a aparência de Branca Morena. Assim , o integrante mais velho , pensando em se tratar de uma assombração diabólica , amarrou a moça , colocou – a num saco e matou a pobre , com um tiro , numa das estradas de Minas Gerais que fazia fronteira com São Paulo .

Diz a lenda que seu espírito não se deu conta da morte, e ela até hoje vaga em busca do seu povo, a passos rápidos e largos, sem colocar o calcanhar no chão.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A visagem sinistra do Pátio de São Pedro (Recife-PE)


O cenário é dos centenários prédios do Pátio de São Pedro, no tradicional Bairro de São José. Dizem que num dos sobrados de quatro andares existentes na lateral da Igreja de São Pedro (a construção do século XVIII que dá nome ao lugar), reside uma figura que provoca calafrios nos que a encontram. É uma mulher bonita, de longos cabelos negros e roupas provocantes que é vista a caminhar lentamente pelos corredores e escadarias do antigo edifício. Os que se deparam com ela logo percebem trata-se uma visagem, alma de outro mundo: depois de alguns passos, a moça misteriosa de semblante tristonho desaparece no ar, como por encanto.

Uns poucos cômodos do sobrado são moradias para algumas famílias. Em outras dependências trabalham costureiras e prestadores serviços, como pintores de placas. Muitas dessas pessoas já testemunharam a aparição. A decoradora Rosângela Silva, que morou no lugar, contou o que ouviu sobre a origem da fantasmagoria. Seria o espectro de uma mulher que alugou um dos quartos do velho prédio na década de 50. Era jovem e atraente, mas vivia só e carregava a dor de uma desilusão: havia sido abandonada pelo amante. Comenta-se que, para sobreviver, trabalhava como prostituta. Certo dia matou-se ateando fogo ao corpo. Morte lenta e dolorida de quem tenta queimar a dor de uma constante amargura. E desde então virou mal assombro, alma-penada, eternamente presa a este plano de existência por causa do terrível pecado que cometeu.

As pessoas que convivem no sobrado já tentaram por fim ao sofrimento desse espírito encomendado missas e requisitando bênçãos dos padres no próprio edifício. Logo depois dessas medidas pensaram que as aparições deixaram de ocorrer, mas não por muito tempo, não demora até que mais alguém se depara novamente com a sinistra mulher a caminhar pelos corredores.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A Lenda da Serpente do Tanque (Lages-SC)


Nas segundas-feiras, no tanque, as lavadeiras debruçadas por sobre as tábuas, a torcer as roupas dos senhores coronéis e suas famílias, trabalhavam enquanto batiam aquele papo gostoso do dia-a-dia. Em meio a estes papos, as histórias iam sendo contadas e a lenda do tanque se repetia no palavreado simples das mulheres que ali lavavam suas roupas. A história contada era de que uma mãe solteira, para encobrir o fruto de sua vergonha, jogara a criança naquele tanque onde estavam a labutar. Estranhamente, todavia, a criança não morrera, mas se transformara numa cobra.

Contavam elas que a cabeça da cobra permanecera ali no tanque e a cauda se encontrava no rio Carahá, estendida em todo o seu percurso. Nossa Senhora, a padroeira de Lages, ciente do hediondo crime praticado pela desnaturada mãe, prendia com os pés a cabeça da moderna hidra ao berço úmido da desgraça mítica, procurando assim evitar que a criança, transmutada em monstro, se revelasse ao mundo. No dia em que a Santa abandonasse esse propósito, a cidade seria totalmente tomada pelas águas, escapando somente a enchente, à cacimba da Santa Cruz. 

Diversas vezes notou-se verídica a previsão, pois, quando era tirada a imagem da Santa de seu altar, na Catedral, mesmo em procissões, começava a chover torrencialmente, parecendo que o mundo iria se desfazer em água. Porém, bastava retornar a imagem da Santa ao seu altar, que, o sol voltava a brilhar, afastando-se assim a promessa do cumprimento do trágico cataclisma.

O relato das mulheres lavadeiras se espalhou por toda a cidade e o medo se apossou de todos, vindo assim a fazer com que as mulheres nunca comparecessem sozinhas ao tanque, sempre iam acompanhadas ou em grupos. Ninguém se atrevia a passar a noite naquele ermo, porque, ao lado do coaxar dos sapos, ouvia-se plangente e lúgubre, o grito de um ser perdido em angústia e desesperança.


O premiado documentário abaixo feito por estudantes de jornalismo faz um retrato das origens da lenda:


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Lenda do Quibungo (Bahia)


O Quibungo é uma espécie de Bicho-Papão negro, um visitante africano inesperado que acabou por se domiciliar na Bahia, onde passou a fazer parte do folclore local. Trata-se de uma variação do Tutu e da Cuca, cuja principal função era disciplinar, pelo medo, as crianças rebeldes e relutantes em dormir cedo.

A Criatura

Quibungo é metade homem e metade animal, tem uma cabeça grande e uma boca enorme em suas costas, por onde engole as crianças desobedientes. Não possui grande inteligência ou esperteza e pode ser morto por qualquer tipo de arma. Quando atacado, se assusta e grita apavorado.

Origens da Lenda

É uma figura da literatura oral afro-brasileira, com sua bestial voracidade, sua imensa feiura, brutalidade e inexistente finalidade moral. Em quase todos os contos em que aparece o Quibungo há versos para cantar. Esse detalhe lembra as estórias contadas, declamadas e cantadas que ainda hoje podemos ouvir na África equatorial, setentrional e na China, ao ar livre, para um auditório sempre renovado das ruas e praças. É o famoso teatro dos bonecos ou marionetes, onde personagens encenam dramas épicos ou outros de finalidades morais e educativas, retratando sempre de uma forma lúdica e didática os problemas das comunidades. 

Em Alger ou Xangai, e mesmo nos países nórdicos, vivem ainda hoje estes artistas de rua, descendentes indiretos dos Mímicos da antiga Roma nos tempos do império. O Quibungo é um forte aliado dentro dessa literatura onde não existem limites para a imaginação. 

No Congo e Angola, Quibungo significa "Lobo". Entre os povos da costa ocidental da África, existiam as hordas de salteadores vindos de outras regiões e que comumente invadiam povoados e aldeias, saqueando tudo; se apossando de mulheres, crianças e demais pertences, e escravizando os homens e os velhos. A este tipo de agressão praticadas pelos grupos invasores eles chamavam de Cumbundo, e a cada indivíduo que faz parte do grupo, Quimbungo que pode ser interpretado como "invasor" ou"invadir", ou "aquele que vem de fora sem ser esperado ou convidado". 

De tal sentimento de pavor que sentiam, inspirados pelo Quimbungoinvasor, associados à ideia e ao terror próprios do Chibungo, como eram chamados pelos povos negros o Lobo animal, nasceu evidentemente na imaginação popular a concepção dessa entidade estranha - O Kibungo. Os povos Bantus se encarregaram de transmitir às nossas populações do norte e nelas persiste, mesmo após o desaparecimento dos povos em que teve origem. 

Desse modo, o Quibungo baiano é ao mesmo tempo homem e animal. Espécie de lobo ou velho negro maltrapilho e faminto, sujo e esfarrapado, um verdadeiro fantasma residente nos maiores temores infantis. 

Não nos é possível determinar se nas estórias africanas o Quibungoconserva a forma e os hábitos do seu similar baiano. O Quibungo africano não tem um ciclo temático igual ao brasileiro. Aqui ele assumiu o mesmo papel já atribuídos ao Tutu-Marambá, ao Bicho-preto, ao Macaco-saruê, ao Bicho-cumunjarim, ao Dom Maracujá e ao próprio Zumbi que muitas vezes é sinônimo de Saci-Pererê. Do africano herdou a boca vertical, do nariz ao umbigo ou no dorso, assim como já é o nosso Mapinguari. Na Bahia o Quibungo reina e governa em sua missão de assombro aos pequenos. 

Assim, o Quibungo baiano é só baiano, não existe em outros lugares do Brasil. É um bicho meio homem, meio animal, tendo uma cabeça muito grande e também um buraco no meio das costas, que se abre quando ele abaixa a cabeça e se fecha quando levanta. Engole as crianças abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando-as para dentro. É também um feiticeiro, demônio, lobisomem, macacão, preto velho. No fundo continua sempre a ser um ente estranho e canibal, que prefere a carne tenra das crianças. 

Outro ponto digno de menção sobre o Quinbungo é sua completa vulnerabilidade. Pode ser atacado por qualquer meio, arma branca ou de fogo. Morre gritando, espavorido, acovardado, como o mais inocente dos monstros que a imaginação infantil dos povos já criou.

A influência africana é determinante, mas não influenciou que se espalhasse por outros Estados do Brasil. Negros escravos Bantus se espalharam por toda parte. Em Pernambuco ficaram muitos. Mas a lenda do Quibungo não acompanhou estes, nem em Sergipe, onde ficaram outros tantos. 

A versão brasileira é originária da Bahia. Os aspectos do personagem baiano brasileiro, difere do africano. Serviu a África apenas como fonte de inspiração. Apesar de ter origem entre os povos negros Bantus que migraram para a Bahia, não se espalhou para os demais estados, mesmo diante do grande afluxo desse povo para outras regiões do país. 

O Quibungo se tornou baiano, e assim ainda continua. Se fosse de origem africana sem dúvida acompanharia seus habitantes para onde quer que estes se deslocassem, o que não ocorreu no Brasil. Ele não é citado nas estórias nem do Nordeste, nem do Norte. Ele foi importado da África como protótipo, mas reestruturado pelos brasileiros baianos com base nas crenças locais já existentes. 

Desse modo, ele herda aspectos do "Velho do Saco", do Lobisomem, etc. A referência à sua boca às costas, mais lembra o próprio Velho do Saco, que literalmente engolia as crianças pelas costas, uma vez que depois de ensacá-las, jogava o surrão sobre seu dorso e ia embora. 

O Homem do Surrão ou "Velho do Saco" faz parte de estórias portuguesas e está em quase toda Europa. É um homem velho, esfarrapado, sujo, muito feio, que procura agarrar as crianças vadias ou descuidadas e metê-las num grande saco de couro, de abertura larga, pronta para este fim. 

Não se sabe como morrem as crianças. Se o homem as devora ou mata-as pelo prazer de matá-las. Cada criança que o Homem segura é sacudida no surrão que se fecha. Para este movimento é preciso que o Homem baixe a cabeça. Então o surrão abre-se. Presa a criança, fechado o saco, o Homem ergue a cabeça. São as mesmas atitudes do nosso Quibungo com sua suposta imensa bocarra. Pela descrição, a boca do Quibungo é um saco. 

No mais, é mito local, trabalho conjunto afro-brasileiro, uma silhueta disforme e negra que caminha, não nas florestas como o Mapinguari, mas nos contos populares como as histórias da carochinha.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O Lobisomem do Cemitério (Rio Grande-RS)



Aproximadamente na década de 70, na rua 2 de Novembro, onde até hoje se encontra o Cemitério Católico da cidade de Rio Grande, atuava o famoso “Lobisomem do Cemitério”.

Pessoas que passavam tarde da noite por ali diziam que um estranho bicho aparecia sempre a meia noite. Assim que alguém passava, ele pulava do alto muro do cemitério e assustava as pessoas. Os que eram assustados por ele, revelavam que o bicho era meio homem meio animal. Foi a partir desse depoimento que as pessoas começaram a acreditar que se tratava de um lobisomem. Notaram também que o bicho uivava quando agia.

Mas o segurança da Viação Férrea (que ficava em frente ao Cemitério) não acreditava no que estava acontecendo. Então ele resolveu vigiar uma noite inteira o cemitério para ver se o que falavam era verídico. Assim que deu meia noite em seu relógio ele ficou mais atento em tudo que estava em sua volta. Foi aí que ele ouviu um uivo muito alto, no instante uma senhora passava pela frente do cemitério (uma mendiga), e o lobisomem saia do muro. O segurança começou a atirar, e o lobisomem saiu em disparada.

Desse dia em diante nunca mais se ouviu falar nele, mas nada dura para sempre, a qualquer momento pode aparecer um para voltar a assustar a cidade.


A lenda segue viva

Vítima de 'lobisomem' fez desenho do agressor (Foto: Lauro Alves/Diário de Sta. Maria/Ag. RBS)


A lenda do lobisomem de Rio Grande-RS está mais viva do que nunca, em janeiro de 2009 moradores de São Sepé (RS) procuraram a polícia alegando que um ‘lobisomem’ estaria à solta na cidade. Uma das possíveis vítimas, de 20 anos, registrou ocorrência na delegacia. 

Segundo a Polícia Civil, Kelly Martins Becker afirma ter sido atacada, na noite de 28 de janeiro, por um bicho parecido com um cachorro grande, que ficava apoiado nas patas traseiras e andava como se fosse um homem. Ela chegou a fazer um rascunho para descrever a criatura. 

De acordo com a ocorrência registrada, o agressor teria arranhado o rosto e os braços da vítima. A polícia informou que Kelly foi submetida a um exame de corpo de delito, no qual foram constatadas as escoriações.

A polícia afirma que irá investigar se alguém está usando uma fantasia de lobisomem para assustar a população. Em abril de 2008, alguns moradores de Santana do Livramento (RS) também passaram por momentos de terror com ataques do "Homem da Capa Preta". Sem conseguir nada de concreto sobre as aparições da figura, a polícia encarou os registros como folclore.

Fonte: Globo

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Lenda da Matinta Perera (Sul, Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil)


Para começar 2016 em grande estilo vamos contar 13 lendas brasileiras de arrepiar, cada dia da semana uma lenda diferente! Para iniciar apresentaremos a lenda da Matinta Perera, lenda essa muito conhecida no Brasil, ela está presente em quatro das cinco regiões do Brasil (sendo ausente apenas no Sudeste).

Conta a lenda, que à noite, um assobio agudo perturba o sono das pessoas e assusta as crianças, ocasião em que o dono da casa deve prometer tabaco ou fumo. A Matinta Perera é uma ave de vida misteriosa e cujo assobio nunca se sabe de onde vem. Dizem que ela é o Saci Pererê em uma de suas formas. Também assume a forma de uma velha vestida de preto, com o rosto parcialmente coberto. Prefere sair nas noites escuras, sem lua. Quando vê alguma pessoa sozinha, ela dá um assobio ou grito estridente, cujo som lembra a palavra: “Matinta Perêra…”

Há os que dizem que já tiveram a infeliz experiência de se deparar com a visagem dentro do mato. A maioria a descreve como uma mulher velha com os cabelos completamente despenteados e que tem o corpo suspenso, flutuando no ar com os braços erguidos. Ao ver uma Matinta, dizem os experientes, não se consegue mover um músculo sequer. A pessoa fica tão assustada que fica completamente imóvel! Paralisada de pavor!

Para os índios Tupinambás esta ave, era a mensageira das coisas do outro mundo, e que trazia notícias dos parentes mortos, era chamada de Matintaperera.

Para se descobrir quem é a Matinta Pereira, a pessoa ao ouvir o seu grito ou assobio deve convidá-la para vir à sua casa pela manhã para tomar café.

No dia seguinte, a primeira pessoa que chegar pedindo café ou fumo é a Matinta Pereira. Acredita-se que ela possua poderes sobrenaturais e que seus feitiços possam causar dores ou doenças nas pessoas.

Em alguns lugares, se apresenta como um velho, a cabeça amarrada com um pano ou lenço, como se fosse uma pessoa doente, indo de porta em porta, também a pedir tabaco.

Um ponto em comum em todas as versões encontradas, é que se trata de um indivíduo nômade, que anda a gritar, ou com seu assobio de pássaro, ou a tocar uma flauta, sempre a pedir tabaco. No Tupi encontramos Mata como significado de coisa grande, e mati para coisa pequena. No nosso caso da Matinta-Pereira, o mati significa um ente misterioso, nem ave, nem quadrúpede, nem serpente, mas tendo de todos estes alguma coisa. Mora nas ruínas, junto com onças, corujas e cobras.

Há na região Norte, sociedades secretas femininas chamadas de Tapereiras, que o povo chama de Mati-taperereiras. Às vezes usam do medo que provocam na população para obterem vantagens. Conta-se que garotos de 10 a 14 anos, como serventes e nas noites sem luar, saem a gritar imitanto a Matinta-pereira. O povo assustado fecha as portas e janelas, e todos se calam para não atrair o “demônio” para suas casas.

Nos dias seguintes a essa noite, todos sabem que durante o dia chegará às suas portas uma velha a pedir tabaco. Nesse caso é melhor dar, ou charutos, e mais alguma coisa para comer. Insatisfeita tentará entrar na casa; Satisfeita ela irá embora sem causar mal algum.

Ao ouvir durante a noite, nas imediações da casa, um estridente assobio, o morador diz:: – Matinta, pode passar amanhã aqui para pegar seu tabaco. No dia seguinte uma velha aparece na residência onde a promessa foi feita, a fim de apanhar o fumo.


Confira abaixo um pequeno documentário feito por alunos da FAPEN sobre a lenda da Matinta Perera:

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Especial- 13 Lendas Brasileiras de Arrepiar!


A partir do dia 13 de janeiro estaremos de volta com um especial de arrepiar!

De 13 de janeiro até 29 de janeiro você irá conferir lendas de todas as regiões do Brasil, são visagens de assombrações, lendas urbanas e rurais capazes de arrepiar até o último fio de cabelo de um Lobisomem! 

Preparado?