Lendas de Piracicaba- SP

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Lendas de Piracicaba- SP



Conhecida nacionalmente como "Terra da Pamonha", Piracicaba é uma típica cidade do interior de São Paulo onde o clima de uma época distante ainda se faz presente, apesar de ser considerada uma cidade grande o clima caipira ainda resiste em suas ruas e esconde diversas lendas perdidas no tempo, selecionamos algumas das mais conhecidas, confira:


A Noiva da Colina



Conta-se que há muitos e muitos anos, quando a cidade não passava de um vilarejo, viveu por estas bandas um jovem casal de apaixonados que costumava se encontrar todos os dias, ao entardecer, numa pequena colina às margens do caudaloso rio que dava nome à cidade.

A paixão que os unia era tão intensa que, cada novo encontro, tornava-se pura magia, graças ao cenário fantástico que os envolvia nesses idílios. Traçavam belos planos para o futuro que incluíam filhos para compartilhar esse grande amor. Sonhavam com uma casinha aconchegante e cheia de flores à beira do rio que amavam tanto e que sempre faria parte de suas vidas, já que Ari era um pescador.
A cerimônia do casamento seria na capela, ornada com flores em profusão, de todos os matizes, pois plantas e flores eram a paixão de Iraci, a jovem casadoira.

A moça, vendo que a coroação do sonho estava próxima, sentia-se num verdadeiro paraíso onde só havia amor, encantamento e felicidade. Às vésperas do casamento, tudo já estava mais ou menos encaminhado. O casal acertava os últimos detalhes sentado na barranca do rio, quando Ari vislumbrou entre o vão das pedras, uma flor estranha e de inigualável beleza e decidiu colhê-la para sua amada já que ela gostava tanto de flores. Foi cautelosamente escalando as pedras mais secas e logo chegou ao destino. Parou maravilhado pela rubra flor aveludada e ficou contemplando absorto as pétalas salpicadas de gotinhas furtacores, ansioso para entregá-la ao seu grande amor. Tão embevecido ficou que, pisando em falso, foi colhido de surpresa pela força truculenta da correnteza. Tentou lutar contra ela, mas a violência das águas era tanta que o pobre rapaz sucumbiu num redemoinho de espuma. Iraci, que tudo assistia sem nada poder fazer, entrou em desespero e, num ímpeto ditado pelo coração, mandou-lhe um último beijo, pedindo a Deus que o acompanhasse.Jamais encontraram o corpo do jovem tragado pelo rio, que nunca o devolveu. Para a donzela, que viu seus sonhos de amor desmoronarem, só restaram as lágrimas. Tudo perdeu o sentido, sua vida não tinha mais significado.

Todos os dias, religiosamente, ela rumava para a beira do rio e, na pequena colina, com os olhos perdidos no horizonte, sentia a aragem suave envolvendo-a, e fechava os olhos imaginando que era o seu amor afagando-lhe os cabelos como sempre fazia. Só assim conseguia um pouco de paz e conforto para aplacar sua dor pela imensa saudade.

Passaram-se os anos rapidamente. Os loiros cabelos, que a brisa do rio continuava a afagar mansamente, tornaram-se brancos como a espuma do rio e, todos os dias, a velha senhora era vista na colina perto do rio a derramar lágrimas de saudade pelo noivo engolido pelas águas traiçoeiras do rio.
Sua história perdeu-se entre tantas outras e diluiu-se no tempo. Mas há pescadores que juram de “pés juntos” que, ainda hoje, em noites sombrias, ouvem choro e lamentos longínquos. É o pranto eterno da noiva que, segundo a crença popular, continua misteriosamente a ecoar pelas cercanias do rio.

Não se tem certeza de sua veracidade, mas essa é uma das muitas histórias que são contadas pelos avós aos atentos netinhos em noites de temporal e passadas de geração em geração.
Em épocas de cheia do rio, quando as águas barrentas invadem com fúria as habitações ribeirinhas, dizem que são as lágrimas da moça pelo noivo perdido que fazem o rio transbordar. Pode ser mais uma história de pescador. Quem sabe?…

A cidade de Piracicaba é famosa, além das fronteiras, como a “Noiva da Colina”, e seu nome em tupi-guarani quer dizer “lugar onde o peixe para”. Seu majestoso salto é conhecido como “Véu da Noiva”, pois desce as pedras em cascata, espumejando as águas até torná-las brancas como o tule farto que adorna a grinalda das noivas ao pé do altar.

Os nativos desta terra são apaixonados pelo rio e pela ”noiva”. Não há um só poeta ou escritor piracicabano que não tenha cantado em verso ou em prosa as suas belezas naturais.
E o imponente Rio Piracicaba, em seu eterno corcovear, leva para longe a história de amor dos dois amantes, que ficou para sempre em suas águas a vagar…


A Lenda do Rio Piracicaba



Conta-se que o rio Piracicaba era belo e calmoso, sem corredeiras, como se fosse um remanso. Às suas margens, moravam pescadores brancos e índios. Viviam em paz. Mas, vinda não se sabe de onde, apareceu uma jovem de “cabelos longos e tão negros que parecia ter-se, numa noite escura, diluído em fiapos mil para adornar-lhe a cabeça. Lábios carnudos, vermelhos como a romã, pernas longas e bem torneadas, olhos verdes como o verde das folhagens. Seu nome, ninguém nunca o soubera, como, também, nunca souberam onde morava e do que vivia.”

Dizia-se que ela, como uma deusa, surgira das águas. Quando não aparecia, pescadores tomavam de suas canoas e iam em busca dela, do som que vinha das entranhas do rio. Forasteiros começaram, também, a aparecer na povoação querendo a jovem misteriosa. Os homens se apaixonavam por ela, as mulheres odiavam-na. Certa manhã, a povoação de Piracicaba acordou em sobressalto. O filho de um dos pescadores, o mais bonito – de “pele trigueira, cabelos de ouro” – havia desaparecido. Procuraram-no nas matas, ao longo do rio, gritaram seu nome. Não o encontraram. Mas perceberam que algo estranho acontecera: havia mais luminosidade no ar, mais perfume, um “ar doce e almiscarado”.

Então, numa certa manhã, aconteceu o horror. O rio corcoveou, o céu se fechou, os pássaros, pacas, veados fugiram, estrondos cortaram os ares. E, de repente, tudo silenciou. O rio ganhara uma cachoeira enorme, espumas e roncos que, de quando em quando, se transformavam em gemidos. Daí, soube-se o que acontecera: o rio, enciumado com o amor da moça pelo belo rapaz, desafiou-o para uma luta sem fim. E rio e homem lutaram pela mulher que ficara prisioneira no fundo das águas. O rio venceu. E foi por isso que ganhou a cor que tem, que não é de barro, mas do “trigueiro do corpo do rapaz”. O gemido do rio são soluços da jovem à espera do seu amor.

Até hoje, quando alguém morre nas águas do rio, sabe-se que morreu em busca da noiva enclausurada. O rio reage sempre. E manda avisos: se alguém morre, a enchente vem. E somente se vai quando outro apaixonado morre em busca da noiva que está presa nas pedras do Salto. Pois foi desse amor que nasceu o Salto do rio Piracicaba.


A Inhala Seca



Depois de sete anos, o coveiro reabriu a vala.

Foi num tempo longe do agora, no fim do século passado, no tempo da escravidão. Em Piracicaba, lá pelas bandas do Morro do Enxofre, de vez em quando, onde havia um mato cerrado, aparecia a Inhala Seca. Não se sabe quem afirmou que um dia ela havia sido gente viva. Morreu de tísica e foi enterrada no antigo cemitério de Piracicaba (local onde foi posteriormente construído o Grupo Escolar Moraes Barros). Depois de sete anos, o coveiro reabriu a vala onde havia sido colocado o cadáver de Inhala, encontrou-o intacto - dizem que não faltava um único fio de cabelo. 

Sepultaram-no novamente. Passados mais cinco anos, abriram a cova pela segunda vez. Qual não foi o espanto dos presentes: Lá estava ainda o corpo da morta intacto ... Sem saber qual a atitude a ser tomada, como já estava escurecendo , os coveiros deixaram o corpo seco da Inhala de pé, encostado na cerca do cemitério. Porém, quando no dia seguinte voltaram para enterrá-Ia novamente, o corpo seco da Inhala havia sumido...- Fale baixo!...Quer morrer apedrejado? Inhala Seca tem ouvido de tuberculosa, ouve de longe! Ela traz consigo o vento, para que os seus passos, quebrando galhos no mato, não sejam escutados. Muito, muito feia mesmo, e muito magra; com os dedos grandes e secos, armados de enorme unhas, mostrando sob os farrapos e folhas, os ombros esqueléticos. Segundo os que tiveram a desventura de "topar" com ela, há a informação de que se vestia de mato. Era horrível mesmo. Tinha a cabeça grande coberta pela cabeleira desgadelhada. Rosto chupado e olhos esbugalhados, vermelhos e acesos. 

No "Almanak de Piracicaba para o ano de 1900", Escolástica Couto Aranha - brilhante figura do magistério paulista, esposa do professor Antônio Alves Aranha, o fundador da Escola Normal de Piracicaba - registrou pela primeira vez o mito da Inhala Seca. Quando se pretende enfiar o bedelho no passado, o melhor mesmo é ouvir os "antigos". E os "antigos" dizem que ouviram contar que ela pegava gente e levava para o fundo da barroca ... 

O mito da Inhala Seca é, sem dúvida uma variante do "Corpo Seco", homem que passou pela existência terrena semeando malefícios. Ao morrer, nem Deus, nem o diabo, aceitaram sua alma. A própria terra repeliu o seu cadáver, enojada de sua carne. Com a pele engelhada sobre o esqueleto, levantou-se da sepultura, para cumprir o seu fardo...


O Turco que Come Crianças



O "turco que come criança" ficou em nossa tradição popular como um duende, do tipo do Saci, do Caipora, etc. E ele uma espécie de bicho papão, com crença generalizada em todo o Estado, porém fortemente achegada a Piracicaba.

Contam que, antigamente, os primeiros turcos mascates que apareceram, furtavam crianças para comer. Essa ridícula crendice, creio ser atribuída aos nossos matutos e dá-se desculpas a eles que, cismados por natureza, não simpatizaram logo com esses civilizados e cultos orientais, vindos de tão longe e de Língua tão estranha e, conseqüentemente (na ideia dos matutos) capazes de tudo.

Diz que a crença foi tão sólida que, com os corriqueiros desaparecimentos de crianças, até surgiram, de pais aflitos, queixas à policia contra os turcos "antropófagos". Essas queixas estão noticiadas em antigos jornais da terra.

Ainda hoje é comum, e já ouvi muitas vezes, certas mães ameaçarem os filhos com a aparição do "turco que come criança", da mesma maneira que as mães antigas os ameaçavam com a Cuca ou o Lobisomem. E isso sana qualquer desobediência, reinação ou falta de sono...


O Sono do Salto


Salto que todos os dias, no meio da noite, dorme um pouquinho. Dizem que, todos os dias, à meia-noite, numa fração de minuto o Salto para de fazer barulho e "dorme". Esta crendice foi-me contada, há muitos anos, por uma senhora de cor, minha conhecida.

Reproduzo o caso, usando mais ou menos suas próprias palavras. Uma ocasião, eu estava num baile lá na rua do Porto, quando foi perto de meia-noite, eu tinha dançado bastante e sai pra fora e sentei no barranco do rio, descansar um pouco. O Salto, lá de longe, fazia o barulho de sempre.


O Túmulo Eterno do Padre Galvão



Uma das mais caras e acalentadas lendas de Piracicaba é a que refere-se ao túmulo do Padre Galvão, no Cemitério da Saudade. Padre da Cidade até o ano de 1898, o padre Galvão Paes de Barros foi, a seu tempo, uma das personalidades mais influentes e queridas de Piracicaba, temido por políticos e amado pelo povo. Quando faleceu, seu corpo foi levado por grande multidão ao Cemitério da Saudade. E seu túmulo foi construído conforme o traçado do local, naquela época.

Aconteceu, no entanto, que o Cemitério foi reformado e muitos túmulos foram retirados de seus lugares, remexidos. O do Padre Galvão, porém, foi deixado no lugar onde se encontrava, em respeito à sua história. Intocado, fugiu aos novos enquadramentos de túmulos e de sepulturas. 

Mas a imaginação popular criou a lenda. Passou, o povo, a contar que o túmulo não saíra do lugar porque, no dia em que o padre ia ser enterrado, o caixão caiu exatamente no lugar onde ainda se encontra e não houve força humana capaz de erguê-lo para lhe dar sepultamento em outro terreno. A partir da invenção, o túmulo do Padre Galvão se tornou lugar de romaria e de orações, uma lenda piracicabana.


A Cobrona


Dizem existir enterrada em Piracicaba, uma imensa cobra que pelas suas proporções, é a maior do mundo. Sua cabeça está no subsolo do Largo da Catedral e seu rabo vai até a Rua do Porto. Diz a lenda que no apocalipse ela irá despertar e quando isso acontecer irá engolir toda a cidade.


O Coqueiral Assombrado



Lá pelas bandas de Pau D´Alho, onde ficavam as fazendas de Santo Antônio do Bicatu e de Mandacaru, existe na divisa entre essas propriedades um coqueiral. Dizem que a dona dos escravos e proprietária da fazenda era tão ruim que mandava enterrar os escravos perto do coqueiral sem benção do padre, sem cruz, sem lamentações, sem nada...como se fossem bichos.

Um dia ela morreu e a família organizou um evento bem luxuoso para o seu enterro, porém quando ela iria ser enterrada o carro de boi que levou o seu caixão parou em frente ao coqueiral, os bois empacaram e não queriam mais sair do local, nem mesmo levando muitas varadas violentas se moviam. O caseiro trouxe mais um monte de bois e mesmo assim nenhum movimento, então se comoveram com a situação e resolveram fazer algo impensável para a época, resolveram enterrar ela junto com os escravos ao lado do coqueiral, sem cruz, sem padre, sem nenhuma cerimônia de despedida. 

Diz a lenda que os espíritos dos escravos finalmente se vingaram das maldades cometidas. 

Um comentário:

André Peçanha disse...

Essas lendas foram tiradas de um livro chamado Lendas e Crendices de Piracicaba, eu acho. Já tive esse livro. Não o tenho mais. A muito tempo procuro por esse livro, mas nunca mais consegui achar!